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Diogo Sal

Interests
Coincidência, destino, q se lixe!
Tou aí, não devo durar muito, quero viver, curtir, tar numa boa.
November 20

A secretária

 
 
 
 
«feitios»...
 
 

 

Não é um conto mas uma homenagem sentida e anónima.

 

Ao discernimento, à amizade, à inteligência, à admiração, à subtileza e ao respeito que pode ligar os seres humanos.

Porque os interesses entre eles devem saber definir-se e enriquecer-se muito para além dos contos que aqui tenho deixado esporadicamente, esses mais virados para o mais imediato e predominante desses relacionamentos.

 

Faço-o hoje, dia do seu aniversário, com dispensa claro, porque considero este dia o «feriado pessoal» de cada um, que devia ser até institucionalizado como tal, e porque mesmo ausente lhe quis destinar um tempo e um pensamento.

 

 

A secretária

 

 

Acompanha-me desde o início da minha actividade laboral, é mais velha oito anos e continua uma mulher onde os traços de charme  pessoal e a força de carácter souberam amadurecer sem se esconder.

 

Era, à altura em que entrei uma secretária executiva competente como nunca vi ninguém ser na sua profissão neste tempo que levo de «trabalhador» mas foi traída um dia pela antipatia ou embirração que provocou ao meu primeiro manda-chuva.

Tem um «feitio», coisa para mim essencial, não me atraem os caracteres que se limitam a acertar com os dos outros, sem uma forte marca pessoal e umas tantas manias que as individualizam não por treino mas por natureza, sejam óbvias e exuberantres ou inversamente discretas e «demasiado» normais, nesta era de perfis e protagonismos de diferenças e cópias organizadas e massivas.

 

Foi-me «destinada» porque nesse seu feitio espontâneo e imediatista irritou quem infelizmente pode estragar uma carreira, porque considera a sua simpatia ou antipatia pessoal um atributo suficiente para eleger ou condenar alguém, limitando-lhe a progressão.

Quando saí trouxe-a comigo e não mais me deixou. É uma exigência prévia minha, inabalável.

 

É a minha memória, a minha agenda, a minha mão direita, ás vezes também a esquerda, e uma pessoa que respeito e admiro.

 

Às vezes senta-se à minha frente e falamos mas nunca devassámos o mundo pessoal um do outro.

Se o fizemos nesses desabafos, onde trabalho, saúde, política e um pouco de tudo da vida se fala, até da família e dos amigos,  foi porque certamente um de nós levou para ali as suas preocupaçôes e atenções pessoais, mas nunca de uma forma perssoalizada e individualizada.

Salvo uma ou outra ocasião em que um de nós precisou de apoio e solidariedade, aí abrimos excepções.

 

Almoçamos próximo dos seus e dos meus aniversários e na Páscoa, mas nunca nos dias certos que implicitamente estarão reservados à vida privada, algures em Janeiro, para dar as boas vindas ao ano que começa, antes e depois de férias e jantamos antes do Natal.

As felicitações nesses dias de ausência comemorativa ou mesmo o transmitir de algum recado urgente fora de horas são enviados via sms pela mesma vontade de manter separada essa diferença entre mundos.

Os presentes que trocamos não se referem a esses eventos, pois poderiam causar hábitos, constrangimentos, inibições e obrigações e principalmente uma certa promíscuidade entre eles.

São simples e autênticas lembranças, pois surgem esporadicamente e num dia qualquer, dos dois lados, normalmente ligados a um gosto ou curiosidde conhecida entretanto e normalmente são introduzidos e entregues de uma forma ligeira e informal como "hoje lembrei-me de si e..." ou "isto nao é nada de importante mas como outro dia falámos de...".

 

Há uns anos, num serão tardio e forçado, em que aprontávamos tudo o que era necessário para uma entrega obrigatória na manhã seguinte, circulávamos entre os nossos dois gabinetes e já na descontracção que se segue ao sentimento de ter conseguido o objectivo, travei inesperadamente depois de atravessar um vão de porta e ela, que vinha atrás de mim, ficou colada a mim.

Talvez por estarmos já na fase de descompressão aquele contacto transmitiu de imediato um conforto quente aos corpos e alongou-se muito mais que o que seria normal, no tempo e na pressão que lhe oferecemos.

Terão sido alguns segundos mas pouco depois e em simultâneo separámo-nos, virámo-nos, olhámo-nos com um sorriso cúmplice, retomámos o que estávamos a fazer e nunca mais tocámos no assunto.

 

Assim homenageio-a hoje, pela competência e dedicação, porque mesmo quando estou fora dependo dela para quase tudo, pela consideração e admiração que crescentemente lhe ganhei e mantenho.

E também pela inteligência e discernimento que partilhou comigo naqueles segundos.

 

O mais difícil é aquele feitiozinho, mas que seria dela sem ele e de mim sem ela!...

 

 

November 11

Devaneio dedilhado

 
 
 
 
 

Pouco trabalhei.

 

A noite escoou-se a olhar-te no meu colo, adormecida, os dedos entrelaçados nos teus cabelos macios, os olhos perdidos no teu rosto sereno e abandonado.

Julgo que dormitei assim, e o trabalho continuou esquecido, emperrado na indiferença e sem lhe conseguir dar a urgência que sabia ter, mas esta noite dera-a só a ti, ao teu sentir tão chegado a mim.

 

Senti o teu roçar meigo, langoroso, trémulo e reprimido da provocação de me acordares o desejo, adivinhei-te o olhar terno quando te levantaste e deixaste o meu colo sedento do teu calor.

Deixei-me estar lá no limbo onde te mantinha nos braços e te tomava num arrepiar de pele que me continuou a  percorrer.

 

Ouvi-te na cozinha e depois a chegares com o tabuleiro impregnado de cheiros do teu mimo, onde sobressaiam aqueles que só toleravas por serem os meus prazeres absurdamente exóticos, desejei continuar assim, a sonhar com os aromas da tua pele, metido na curva sedosa do teu pescoço, o corpo aquecido no teu suor fresco e os dedos alargados e presos em volta das tuas ancas fogosas e ardentes.

 

Senti que desaparecias depois no quarto, onde ainda havia odores das cores novas e quentes, ainda e sempre insuficiente na sua protecção à nossa privacidade e intimidade, deixando escapar os gemidos da entrega e das loucuras que só pareciam completas assim, quando mergulhávamos no tacto, no cheiro e no soltar inebriado e desabrido da paixão sem outra consciência senão a nossa.

Apesar de às vezes te rogar uma contenção que logo fugia de mim, porque mergulhava no teu sem fim...

 

Imaginei-te enroscada nos lençóis, finalmente confortável, porque insistias sempre em me satisfazer aquele desejo pateta de te ter abandonada no meu colo, sentia-me às vezes culpado das tuas queixas do braço e da coluna, cedida ao meu capricho, mandava-te para a cama dormir direitinha, mas sabia que nunca conseguiria mandar-te ou convencer-te seja ao que for e no fundo desculpava-me dos teus ais, pois eles eram a minha perdição e fantasia que não se esbatera naqueles oito anos...

 

Desde que me ofereceras deliciosa e provocantemente o rabo para umas palmadas dedilhadas com milhares de quilómetros de permeio, a acenderes uma brasa que já esquecera desde os tempos das descobertas adolescentes.

E desde que te respondera com uma sinceridade que julgaste simplesmente brejeira que eras tramada...

 

E o tempo voara mas nada alterava, pelo contrário só acrescentava e cimentava essa paixão sem limite, esse bem estar que num repente virava um paraíso dos sentidos, numa aventura que todos os dias se embrenhava pelos infinitos lugares e recantos de um desejo renascido e reinventado de tudos e de nadas, sempre reaberto e renovado, labirinto de cruzamentos emocionais, de risadas e suspiros, sempre pleno de ousadias e despudores e sempre cada vez mais arrebatador, sensual, bonito e romântico, como se tudo isso fosse possível acrescentar à entrega sem cedências nem exigências.

 

No meio haviam os nossos silêncios cúmplices, a liberdade que nunca beliscáramos, os desaparecimentos adivinhados e partilhados, e aquele som ao fundo da Emma Shaplin que tanto gostavas e eu adorava ouvir por ali, porque não há paixão que não descubra a estimulação de uma música de estimação nem uma cedência feita de aquiescência voluntariamente sintonizada para que tudo continue perfeito...

 

Levantei-me, porque afinal nunca estivera adormecido, sorri ao passar pelas almofadas que junto à lareira continuavam queimadas e deitei-me ao teu lado.

Mansamente desci pelo lençol, aspirando cada diferença no perfume da tua pele e beijei-te por todo o caminho do reabrir pleno no meu desejo...

 

Quando te olhei nos olhos já tão despertos, atrevi-me de novo e a minha mão, que se oferecia ao mordiscar incandescente da tua boca, impaciente da palmada, desceu também.

Depois tocou-te e como sempre não mais te perdeu.

 

November 08

Obrigado, camarada Cesare

  
Guernica de Pablo Picasso, claro...
 
 

Regressei esporadicamente a África e encontrei um amigo de infância, daqueles que nunca desistiu dela, veio com os pais ainda menino mas assim que teve a maioridade voltou e por lá assentou até agora.

 

Revê-lo avivou-me muitas memórias, até porque continua um tagarela incorrigível, cada vez mais, mesmo com aquela sonoridade estranha do falar que foi ganhando, que lembra a do Mia Couto, não é aquilo que em calão politicamente incorrecto se chama «prêtoguês» mas uma versão muito mais ligeira de quem fez um esforço para manter o seu idioma nativo puro e acabou por ficar sem uma origem e pronuncia identificáveis, um português «desinfectado», desenraizado e apátrida.

 

E no meio dessas peripécias recordadas com ele nos finais de tarde lembrámos uma onde a inesperada intervenção do título de um livro, ajudada por haver certas palavras que são praticamente iguais em todas as línguas, me foi inestimável e salvou muito provavelmente a vida.

É a minha homenagem aos estrangeirismos e ao meu «grande amigo», o camarada Cesare Pavese.

 
 
 
 

Adolescentes ainda quase imberbes de férias e com pais demasiado absorvidos nas preocupações e preparação do regresso à Pátria mãe, após a declaração da independência, permitiram-me ir acampar numa praia a uma centena de quilómetros da cidade.

Era a primeira vez que o fazia assim, com o amigo agora reencontrado e também com duas amigas (daí a certeza da desatenção paterna), por isso a excitação era intensa, coisas daquela idade tão aparentemente afirmativa quanto realmente insegura, que se fazia sentir num certo comportamento espigado, exagerado e exibicionista.

 

A viagem incluía uma travessia de batelão e na outra margem tivemos um encontro inesperado com um grupo de guerrilheiros que certamente se dirigia para a cidade, depois de anos passados no mato, porque só então tinham sido autorizados a tal, após a retirada das tropas portuguesas.

Como confirmei depois, a guerrilha durante a guerra recrutava todo o tipo de elementos, sem qualquer referência ao conceito de pátria nem aos locais de origem da guerra e assim naquele grupo a compreensão do português, inglês ou francês era nula, até difícil ao dialecto local, porque apesar de haver algumas palavras próximas eles eram definitivamente de muito longe, provavelmente de uma zona de África muito mais interior e norte.

 

Provavelmente foi o meu ar pespineta e já um embrionário cavalheirismo baboco, porque com eles tentei impressionar aqueles guerrilheiros do mato que nunca deviam ter visto meninas brancas, não sei ao certo o que foi mas alguma coisa fiz que os irritou e levou a aproximarem-se subitamente.

Em tom e gestos ameaçadores, acompanhados pelo apontar das Kalash Nikov, o líder mandou-me abrir a mochila.

A presença feminina não ajudou e devo ter continuado com o tal ar que de imediato os assanhou ainda mais e foi já com os canos a tocar-me na cabeça que meti algum tino nela e despejei cordatamente o conteúdo.

Mas a situação era já descontrolada, até porque alguns deles tinham até afastado os meus amigos bem para o lado, como se soubessem o que se ia passar.

 

O meu estado alterara-se drasticamente com a rápida mas já tardia percepção da conjuntura e era agora de um «acagaçamento» absoluto, porque à consciência do que se passava se juntara o alarme da descoberta então evidente que me faltava uma qualquer ponte de diálogo onde minimamente pudesse mostrar o novo espírito humilde que me assolava…

Não, ali não havia esse recurso nem ninguém parecia já preocupado com ele.

Salvo eu claro…

Num estado crescentemente exaltado, que me parecia ser o tomar balanço para se livrar de mim com uma rajada, o líder exprimia-se num tom cada vez mais nervoso e colérico, alternando o encostar do cano à minha cabeça com usá-lo para ir revolvendo o conteúdo despejado.

 

E calhou nesse remexer aparecer por cima um livro, que lhe chamou a atenção.

Baixou-se, pegou nele, virou-o, ficou confuso, olhou para mim e para o livro várias vezes, pareceu encetar um esgar de sorriso  estupidamente perdido no meio daquela histeria que o tomara e chamou um dos homens.

Aparentava estar a perder pressão, a sair daquela exaltação de apelo aos seus instintos guerreiros, ou chamou o outro para isso e depois de falarem e se rirem cada vez mais aberta e efusivamente olharam-me, voltaram a olhar para o livro e riram-se de novo.

 

Aquilo durou um tempo que o meu amigo diz ter sido no máximo um minuto, mas eu juro que foram seguramente dez…

 

Por fim fizeram-me um gesto quase amistoso, se levasse o brilho dos dentes e os risos como referências, e ainda através dos movimentos circulares das armas por cima das coisas espalhadas terminando dentro da mochila, indicaram-me que a arrumasse.

Depois de ter a certeza que era isso que queriam que fizesse meti tudo apressadamente, quando me levantei o líder sorria-me ainda, já quase calmo, porque a euforia daquele estranho bom humor nada tinha já de comum com o transe sanguinário anterior, diria até que fiz ali um amigo, e finalmente aproximou-se com o livro na ponta da mão e passou-me o braço por cima dos ombros.

Só então ouvi melhor a palavra que tanto lhes provocara a súbita mudança de humor, pois a graça espalhara-se, também os outros elementos do grupo e até os meus amigos se riam agora alarvemente, graças a quem quer que mande «nisto» tudo, repetindo-a vezes sem conta, como se fosse a coisa mais divertida do universo.

 

Acompanharam-nos neste epílogo de alegria ao decrépito maximbombo que esperava já para saber se afinal sempre íamos quatro ou só três e que nos levaria ao destino da viagem.

À entrada o meu novo amigo devolveu-me o livro com uma última e já forçada gargalhada, repetindo por uma última vez a palavra mágica. Soou-me como tivesse dito «Meu camarada, se não fosse ele!...».

 

Dissemos-lhes adeus, lá partimos finalmente e guardei para sempre, ainda ali está, bem a meio da estante, o livrinho da minha salvação “o camarada”, kamarada ou como quiserem chamar, do Cesare Pavese, outro amor que perdurará para sempre, tal como por esta palavra quase imutável na escrita e entendimento em quase todo o  mundo, seja com que diferença de fonética ou pronúncia for dita, e ainda bem que ele sabia ler! Curiosamente o título original, Il Compagno, ter-me-ia falhado, suponho.

 

Às vezes penso que podia ter sido na China ou nas Arábias, mas isso sou eu e o meu eterno pessimismo.

 

E ri-me outro dia com ele recordando este episódio, mas ainda assim, passado tanto tempo, os nervos continuam a agitar-se…

 
November 07

Enfim (a honestidade sobrevivente)

Voltou por uma vez o chato blablablá

 
 
 
 
A honestidade sobrevivente

 

 

Há muitas novas formas de ser profissionalmente honesto.

Porque compreensivelmente a maior honestidade passou a ser arranjar um expediente qualquer para ganhar o pão.

 

Tantas que percebo o cuidado de tantos em terem o espaço protegido.

 

Por exemplo, há uns tempos calhou-me a vez de fazer o número escolar de pai convidado, modernidade interessante esta de levar os pais a participar na escola e a enfrentar a plateia daqueles olhinhos tão inocentemente marotos.

Já tinha visto vários pais por lá a ensinarem habilidades ou a fazerem palestras, mas francamente a mim calhou-me melhor escrever um conto infantil…

Fiz mas não me livrei de lá o ir contar e acabei embevecido, porque ver aquela plateia de miniaturas irrequietas e todas juntas nas suas mesinhas a fazerem de crescidos, provoca-me sempre uma ternura temporariamente acrescentada, de repente parecem-me todos filhos meus e incho por momentos.

Mas felizmente depois passa!

Deixei-o lá, claro, e no fim do ano entregaram-me aquela pasta de cartolina a rebentar pelas costuras com os trabalhos do ano, percebo os dois lados, dá para escolher alguns em casa e a eles dá-lhes uma vazão enorme…

Estranhei não vir, ainda pensei em passar por lá mas depois passou-me.

 

A educadora saiu nesse ano mas dei com a foto dela numa livraria algum tempo depois.

E folheei o livro infantil.

Estava quase bem (nunca esteve completamente, mesmo no «meu tempo»...) mas sinceramente acho que não ganhou nada com os retoques simplificativos, porque há - mesmo sendo «educadora» - quem pense que as crianças são atrasadinhas, e as imagens nunca podiam ser aquelas.

Enfim...

 

November 02

Se há és tu!

 

 

 

 

E já passaram estes anos todos!

 

Cheguei quando já eras conhecido, admirado, quase ídolo, nesse teu jeito estranho e fleumático de ser, cheio de subtilezas e humor sereno, na tua descontracção só aparentemente alheada, porque registas nela cada detalhe de uma forma tão leve quanto rigorosa e controlada.

Eu era só um rapazinho acabado de chegar e apenas referenciado pelo teu amigo como um miúdo com graça e ideias frescas.

Passaste por mim um olhar breve, como se já fizesse parte da mobília e puseste tudo a andar, «vá, vão trabalhando o texto que tenho uma coisa para fazer».

Depois vieste ter comigo, «vamos tomar uma bica lá abaixo, estou ainda a meio gás» e na ponta do balcão perguntaste se já tinha feito alguma coisa.

Dei por mim a contar esse quase nada e tu ouviste com a colher a rodar para desfazer o açúcar que continuava no pacotinho, descaído do pires, como se fosse interessante ouvir-me.

No fim disseste o que querias e se concordava que fosse assim, deste-me o guião no regresso e disseste «não te inibas, lê-o e amanhã trás ideias, as minhas são uma muleta, se não tiveres melhor...».

 

E no dia seguinte ouviste as palavras que as contavam e olhaste para os borrões que tinha feito e disseste que sim, que me fizesse a elas, pareciam curtidas, já não em volta da café mas das bejecas tardias na Trindade.

No fim dos ensaios voltaste sempre, e viste o borrão então enorme, lançado em rabiscos pelo papel de cenário a tomar-se algo mais definido e concreto, mas quiseste ver de longe, onde me perguntaste pelas roupas...

Fiquei encabulado, não tinha pensado nelas, percebi então o que era ser cenógrafo, «não faz mal, vai pensando e amanhã dizes», foi sempre assim, atiravas-me com a corda toda mas sempre para amanhã, como quem diz não há pressa, a não ser amanhã...

 

E os borrões tornaram-se painéis e cenários, lembro-me da primeira vez, das «Palavras cruzadas» do Salazar Sampaio, o tio, das noites e das madrugadas finais até o cenário se levantar, de desceres os degraus para me levares para o palco e para as ovações do fim da ante estreia e da estreia, dos disparates elogiosos que ouvi, cada um a ver o que havia e não havia ali, sobretudo lembro-me daquela personalidade conhecida que me falava dos elefantes lá trás.

 

No ano seguinte precisaste de um tecto por duas semanas e foi do meu que te lembraste, não pude dar-to mas mesmo assim continuámos a explorar aquele bem estar que se ia alimentando de amizade e da empatia que crescia.

 

Foi sempre assim mas apesar disso fomo-nos afastando, nesta vida onde tinhamos tantas coisas para fazer e onde acabei por me descartar tantas vezes até me tornar quase ausente.

Ficou a admiração e a amizade, os encontros nas ante estreias, as ceias dos amigos, os anos, a forma como és tão grande dando uma imensidão e espaço de afirmação a quem calha ter a sorte de chegar perto do teu talento.

Mantiveste-o igualzinho ao que sempre foi, aventureiro mas contrapesado no risco e descontraído no exigir, atento, actualizado, trabalhado, delicado, estimulante e discreto, sem falsas modéstias mas também sem arrogâncias, sempre honesto, franco, fiável e partilhado.

 

Quando vejo as homenagens que te fazem agora penso que, por uma vez, serão sempre poucas e por demais merecidas.

Mas continuo a achar que não te conhecem...

 

E não há noite em que não cruze os dedos a pensar que se há maneira de dar cabo dela serás tu a consegui-lo.